Neurodesenvolvimento · TDAH e superdotação

Uma criança pode ser superdotada e ter TDAH ao mesmo tempo?

Pode. Entenda como capacidades e dificuldades podem se mascarar e por que a avaliação precisa olhar além das notas.

Ilustração editorial de três adultos conversando à mesa com materiais de organização
Família, escola e profissionais ajudam a compreender o funcionamento da criança em diferentes contextos. Imagem ilustrativa.

O que significa dupla excepcionalidade?

Sim, altas habilidades/superdotação e TDAH podem coexistir. O termo dupla excepcionalidade descreve a presença de altas habilidades ou potencial elevado junto de uma condição como TDAH, autismo ou transtorno específico de aprendizagem. Superdotação não é um transtorno. Essa combinação pede atenção tanto às capacidades quanto às dificuldades da criança. [1]

A revisão sistemática de Rizzo e colegas, publicada em 2025, descreve diferentes formas de interação entre pontos fortes e dificuldades. Os estudos variam nos critérios de identificação e nos perfis avaliados. Por isso, não existe uma lista única de comportamentos que identifique todas as crianças com dupla excepcionalidade. [1]

Quando as boas notas escondem parte da história

Uma criança pode aprender conteúdos com facilidade e, ao mesmo tempo, esquecer materiais, precisar de muitos lembretes ou ter dificuldade para começar e concluir tarefas. Em alguns casos, os recursos cognitivos ajudam a compensar dificuldades, e o desempenho escolar deixa de mostrar tudo o que acontece na rotina.

Uma pergunta útil é: como ela chega a esse resultado? Importa observar a autonomia, os apoios necessários, o tempo gasto e o impacto no cotidiano. Boas notas não excluem TDAH; esforço elevado, por si só, também não confirma o diagnóstico. A interpretação depende do conjunto da história. [3] [4]

E quando as dificuldades escondem as habilidades?

O caminho inverso também é possível. Desatenção, impulsividade ou dificuldades de organização podem chamar tanta atenção que interesses, raciocínio e capacidades da criança recebem menos espaço. Notas e comportamento em sala de aula não contam toda a história do potencial de alguém. [1]

Em um estudo de 2022, François-Sévigny e colegas compararam relatos de pais e professores de crianças superdotadas com TDAH, superdotadas sem TDAH e não superdotadas com TDAH. As diferenças entre informantes reforçam a importância de reunir mais de uma perspectiva. Os resultados de uma amostra clínica não devem ser tratados como um perfil universal nem como teste diagnóstico. [2]

Para guardar: uma habilidade pode tornar uma dificuldade menos visível, e uma dificuldade pode desviar o olhar das habilidades. Isso é uma possibilidade a investigar, não uma conclusão automática.

Tédio ou hiperfoco não fecham diagnóstico

Uma tarefa pouco desafiadora pode provocar desinteresse. Esse comportamento, isoladamente, não permite concluir que exista TDAH. Da mesma forma, envolver-se intensamente com um tema não comprova superdotação.

O diagnóstico de TDAH exige avaliação clínica por profissional qualificado, história do desenvolvimento, sintomas persistentes e prejuízo funcional em diferentes contextos. As diretrizes NICE orientam considerar relatos de outras pessoas e a presença frequente de sintomas em dois ou mais ambientes importantes. Escalas e observações ajudam, mas não devem sustentar o diagnóstico sozinhas. [4]

O que uma avaliação cuidadosa procura entender?

A avaliação integra informações da criança, da família e da escola, além dos instrumentos indicados para cada caso. Entre as perguntas que ajudam a organizar essa investigação estão:

  • As dificuldades aparecem apenas em tarefas repetitivas ou também em situações importantes para a criança?
  • Como ela organiza materiais, prazos e atividades, e de quanto apoio precisa?
  • Há impacto em casa, na escola, nas relações ou no bem-estar?
  • Como suas habilidades se expressam quando encontra oportunidades e desafios adequados?
  • Existem outras explicações ou condições associadas que precisam ser avaliadas?

Essas perguntas orientam a conversa; não formam um teste para fazer em casa. A interpretação precisa considerar idade, desenvolvimento, contexto e o funcionamento da criança ao longo do tempo. [4]

Reconhecer para oferecer apoio

Compreender o perfil completo ajuda família e escola a discutir apoios que considerem tanto as necessidades de organização quanto as oportunidades de aprendizagem. O objetivo é criar condições para o desenvolvimento da criança, com espaço para seus interesses e para as dificuldades que ela enfrenta.

Se as dificuldades são persistentes ou trazem sofrimento, vale conversar com a escola e buscar orientação profissional. Altas habilidades e TDAH podem coexistir; compreender essa possibilidade é um convite a escutar melhor a criança e reunir informações antes de concluir.

Entenda como funciona a avaliação neuropsicológica →

Fontes e referências

  1. Rizzo L, Pinnelli S, Minnaert A. Twice-exceptional students: a systematic review to outline the distinctive characteristics through a multidimensional lens. Frontiers in Education, 2025;10:1696805.
  2. François-Sévigny J, Pilon M, Gauthier L-A. Differences in Parents and Teachers’ Perceptions of Behavior Manifested by Gifted Children with ADHD Compared to Gifted Children without ADHD and Non-Gifted Children with ADHD Using the Conners 3 Scale. Brain Sciences, 2022;12(11):1571.
  3. Budding D, Chidekel D. ADHD and giftedness: a neurocognitive consideration of twice exceptionality. Applied Neuropsychology: Child, 2012;1(2):145–151.
  4. NICE. Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management (NG87). Recomendações 1.3.1–1.3.4 sobre avaliação e diagnóstico.
Conteúdo educativo. Não substitui avaliação, diagnóstico, consulta ou acompanhamento profissional individualizado.

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